quinta-feira, junho 01, 2006

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Ensino monolítico às guinadas

Tem-se comentado na blogosfera as declarações da Maria Filomena Mónica relatadas neste post da Teoria da suspiração, a que cheguei através deste outro no Da Literatura. Talvez por estar longe há uns tempos (largos) não tenho acompanhado de perto estas questões, mas fico com a sensação que uma coisa não mudou quando se debate a educação em Portugal: a discussão fica sempre à volta do conteúdo dos programas. Como se isso fosse o mais importante, pior como se isso fosse tudo. Correndo o risco de repetir o que já disse, (a ideia é sem dúvida a mesma), na minha opinião, muito mais importante do que os programas são as ferramentas que os alunos aprendem a utilizar. O currículo é o que menos importa. Se perguntarmos a cinco ou seis "especialistas" qual é "O" melhor currículo, teremos cinco ou seis respostas diferentes, se metermos os "especialistas" fechados numa sala - um "painel de especialistas" - talvez cheguem a um consenso (sobretudo se estiverem a pão e água). Três ou quatro painéis chegam a três ou quatro consensos diferentes. Como notou o Rui Tavares na sua excelente crónica: Na sala cheia toda a gente estava a favor dos clássicos; gerou-se o consenso de que o melhor método para ensinar os clássicos era o que cada um defendia, e que o dos outros era provavelmente desastroso. Só uma visão monolítica do ensino pode pensar que há UMA única verdade absoluta que TODOS os alunos precisam de aprender para bem da sua formação humana e profissional (o sarcasmo deste post do Arrastão toca no ponto). Mas de que serve ensinar-se os clássicos se os alunos não aprenderem a lê-los? Enquanto as discussões se centrarem no conteúdo dos programas nunca 1) se vai gerar consenso nenhum (o que em si mesmo não é um problema) 2) os alunos hão-de aprender a pensar pela própria cabeça (este sim o grande problema). Este ensino monolítico ensina muita coisa mas não ensina o aluno a procurar, processar, filtrar, criticar e apreender a informação. O produto final é-lhes apresentado, e espera-se que o aceitem passivamente.

Veja-se por exemplo o ensino de Camões. Há uns anos caiu o Carmo e a Trindade porque se falou em tirar Camões dos programas. Nem me lembro em que é que ficou, mas era bom que tirassem. O que "aprendi" sobre Camões deixou-me um trauma que só uns dez anos depois é que voltei a pegar, e foi porque tive uma boa professora no 11º ano, senão tinha sido um trauma para o resto da vida. No 11º (dava-se a lírica) aprendi eu, e toda a gente na altura, uma meia dúzia de sonetos, sempre os mesmos desde há décadas. Aprendia-se a interpretação dos ditos sonetos segundo um determinado autor. E está "ensinada" a lírica de Camões. Ninguém aprendeu que pode haver várias interpretações diferente, logo também não se aprendeu o porquê dessas diferenças, ninguém aprendeu que há uma lírica para além dos sonetos, ninguém ouviu falar de Petrarca, e ninguém ouviu falar da interminável controvérsia sobre o cânone da lírica de Camões. Ensinar às crianças que há muitos sonetos, sextinas, elgias e muito mais, que talvez não sejam de Camões? Ensinar às criancinhas que a dúvida existe? Que em certos temas, incluindo o grande Camões, há coisas que não sabemos? Esse é o pecado capital que este ensino jamais vai permitir. Porque não explicar as razões das dúvidas sobre a autoria de um determinado poema, fazer os alunos procurar os argumentos a favor e contra, e depois pedir-lhes para formularem uma opinião? Não iria isso ensinar-lhes muito mais sobre Camões, e sobre o que quer que seja? E o mesmo se aplica para qualquer outro tema, nem é preciso que se ensine Camões, conquanto os alunos saibam depois ir procurá-lo, e consigam lê-lo.

A mim o que me preocupa é se forem pessoas como o Vasco Graça Moura a fazer os programas. Afinal, quando Aguiar e Silva defendeu, com muito bem fundados argumentos que o soneto "O dia em que eu naci moura e pereça" talvez não seja de Camões, foi Graça Moura quem respondeu com o fantástico argumento "aquilo dá-me uma guinada que só pode ser do Camões".

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